segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Porque não vou mais à igreja?

Acho que você já deve ter visto algum título parecido em textos ou até em um livro "Por que você não quer mais ir à igreja" de Wayne Jacobson e Dave Coleman. Mas creio que este texto tem um intuito um pouco diferente: relatar minha experiência dentro do sistema e minhas impressões. Mas como todo começo deve ter um ponto de partida, vamos ao primeiro ponto.

Qual o modelo de igreja que Deus deixou?

A divisão e a confusão que existem no mundo religioso em nossos dias são contrárias à oração de Jesus na noite anterior à sua morte (João 17:20- 21). Muitos estão ensinando e praticando coisas diferentes. Sabemos que Deus não criou essa confusão. O modelo que ele dá na Bíblia não é difícil de entender, nem impossível de praticar. O problema é que séculos de "modificações", "tradições" e "melhoramentos" humanos anuviaram nossa visão da simplicidade do plano original revelado pelo Espírito Santo no Novo Testamento. Numa era quando muitas igrejas se assemelham a corporações multinacionais, o plano simples de Deus de organização de igreja parece muito simples. Tão simples que esses líderes de hoje o rejeitam. Seguindo este plano, qualquer grupo de crentes biblicamente batizados pode começar a adorar a Deus e a trabalhar unido como uma igreja local. Não precisam de treinamento em algum seminário. Não precisam de permissão de nenhuma diocese ou convenção. Não precisam filiar-se a nenhuma denominação ou liga de igrejas. Não precisam esperar que algum corpo eclesiástico lhes envie um padre ou pastor. Eles precisam é de um inabalável respeito à Palavra de Deus e de um enorme senso de comunidade.

E o que vemos hoje?

Imagine um senhor que tem uma cozinha de comida italiana há mais de 20 anos. Ele mesmo vai à feira, compra os produtos, prepara os pratos e passa pelas mesas para saber se os clientes estão satisfeitos. Quem vai lá conhece ele, e sabe que a mão que prepara a comida é a dele. Agora imagine que este mesmo senhor resolve expandir sua empresa na forma de franquias. Várias pessoas começam à meter a mão na sua receita, atendem os clientes da forma como eles mesmos acham melhor e levam a essência da cozinha para outros rumos, bem diferente do início. Podemos dizer que o senhor criador da cozinha, ao ver a "milésima" franquia aberta irá dizer: "Este não é o meu negócio! Não é assim que trato minha comida e nem meus clientes! Vocês se distanciaram da essência do que faço!".

Vejo o sistema religioso atual bem assim. Estruturas que cresceram (não que o crescimento seja ruim, ao contrário, sou muito a favor da expansão da Palavra de Deus!), se burocratizaram, se sistematizaram e se profissionalizaram. O que há tempos atrás foi erguido para ser um modo de vida e de convivência na sociedade acabou se tornando em verdadeiras "franquias" que engessam, tolhem e anulam o ser humano. No lugar de acolher, seus grupinhos rejeitam. No lugar de dar oportunidades aos que não tem, só destacam aqueles que já são destacados (seja financeiramente, ou por títulos, etc). Não quero ser generalista! Existem pessoas que buscam uma forma de vida do evangelho simples. Mas esses são criticados e expurgados pelo sistema. Rotulados de hereges, apóstatas e rebeldes, ficam à margem, parecendo a resistência de uma guerra.

Agora, um pouco sobre mim

Participei do sistema durante intermináveis 16 anos. Em todo este tempo passei por algumas denominações mais rígidas em termos de usos e costumes e outras mais "liberais" neste sentido. Só que quem dá com uma mão, toma com a outra. As mais liberais, escravizavam seus fieis através de doutrinas e conceitos puramente humanos, forçando-os a viver com uma visão fechada, tal qual um animal de carga possui que aqueles aparatos de couro (não lembro o nome) para impedir sua visão periférica. Tudo isto, forjado para impedi-lo de ver a imensidão de possibilidades e caminhos existentes.

E o mais interessante é que você sente que não há nada mais que aquilo. Que não há vida fora deste aquário e que quem sai dele morre. Pensei isso por muitos anos e criticava veementemente quem estava de fora. Não imaginava eu, que o próprio Cristo saiu da sua glória para conhecer a imensidão de sentimentos e caminhos que permeiam o ser humano. Não imaginava eu, que não podemos dizer que o meu conceito é o certo se só conheço a ele mesmo e fecho minha visão para quaisquer outros.

Um hospital... em parte!

Dizem que a igreja (sistema) assemelha-se a um hospital, onde os feridos pelo mundo vão em busca de recuperação. Certo, até aí tudo bem. Creio que existem feridas abertas nos corações que podem ser curadas mais rapidamente e menos dolorosamente com acompanhamentos específicos. Só que veja: quem cura, também fere! Ele (o sistema) cura enquanto você está fazendo o que ele diz que é certo, enquanto você segue a cartilha de comportamentos, usos e costumes adorados e venerados mais até que o próprio Deus! E se você desrespeita o "deus lei", você então é ferido. É visto com um pecador, como alguém que só é digno de pena, pois não pensa mais como sistema nem se submete aos seus devaneios. E então, a via crucis é mais ou menos esta: você entra ferido e recebe atenção (atenção interesseira, para que você compre a ideia deles), depois acha que é um paraíso e fica por lá, mas ao pensar que em uma cidade existe mais do que um hospital, você é ferido de novo. E desta vez é sem dó, sem remorso nem questionamento. Muito menos direito de defesa! O sistema é cruel!

Uma cidade de cegos

O que mais me revolta e me entristece, é como os habitantes da cidade-sistema são cegos para o que está em sua volta. Como diz, uma música de um grupo que gosto bastante: "A cidade está cheia de tinta / Na cidade dos homens tem gente que consegue ver, / Mas os outros estão cegos pra Ti". E, trazendo para a realidade, os cegos do sistema são os piores, pois são aqueles que não querem ver! Defendem seus líderes-ídolos (alguns quase deuses) de forma cega, não importando as atitudes esdrúxulas que eles tomem. Alguns querem novamente junta o estado da religião, algo que lutamos para separar. Querem impor a sua vontade aos outros e fazê-los marionetes de leis e doutrinas que não passam de construções humanas. Mas como são "voz de Deus", e "homens ungidos", devem ser seguidos cegamente!

O remanescente

Julgamentos não ficaram para mim. Nem para vocês, nem para qualquer outro ser humano! Mas constatações baseadas em experiências e fatos são bem-vindas. Com todas estas constatações que fiz juntando meus 16 anos de sistema, posso dizer que a maioria segue todo este modelo citado, mas existe sim, um remanescente! Existem aqueles que não se encaixam no sistema e tentam criar alternativas que englobem a convivência interpessoal e a prática dos princípios genuinamente cristãos no seu dia-a-dia. É por isso que ainda tenho esperança de haver pontos de luz em meio a essa moderna "idade das trevas".

 É por isso que minha fé em Deus nunca foi abalada. Repito: em Deus, pois fé na instituição... não há mais. Nenhuma. Sei que existem aqueles que irão concordar, aqueles que irão discordar... existem os "cegos do sistema" que irão me acusar de herege, de desviado. Para esses deixo a minha pena por sua cegueira, pois a minha verdadeira aprovação deve vir daquele que me criou. Deve vir daquele que se relaciona comigo sem necessidade de protocolos, sistemas e costumes a serem seguidos. É nele que eu espero... é nele que eu me movo... é nele que eu vivo.

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